14 de março de 2012

Materiais Dentários I

MATERIAIS DENTÁRIOS I
PROPRIEDADES DOS MATERIAIS
“Para conhecermos os materiais dentários necessitamos de conhecimentos básicos da matéria, em particular sobre os sólidos e seu comportamento durante o manuseio e uso na cavidade oral” Philips 1996 
As propriedades físicas de um material (bem como a capacidade de se regenerar) são determinadas pelas forças de uniões interatômicas. Forças coesivas mantêm os átomos unidos!
adesão e coesão:
Adesão: atração entre moléculas diferentes, pode ser química ( em nível atômico ou molecular) ou mecânica(embricamento mecânico), possui propriedades como energia de superfície, molhamento e ângulo de contato, que serão explicados adiante.
Coesão: Atração entre moléculas do mesmo tipo.
Adesivo: Material ou película que produz adesão.
Aderente: Material no qual é aplicado o adesivo.
ENERGIA DE SUPERFÍCIE
Quanto maior for a energia de superfície maior a capacidade de adesão. A adesão depende da atração entre duas superfícies. A energia de superfície e as qualidades adesivas podem ser diminuídas por impurezas
MOLHAMENTO
É a capacidade de um adesivo escoar pela superfície do aderente.
ÂNGULO DE CONTATO
É o ângulo formado entre o adesivo e o aderente. Quanto menor o ângulo de contato entre o adesivo e o aderente melhor a capacidade do adesivo de preencher as irregularidades da superfície do aderente.
Exemplos de adesão a estrutura dental:
Flúor: reduz o molhamento e a energia de superfície do esmalte e dentina
Alguns materiais restauradores possuem alta energia de superfície
O esfregaço (smear layer) reduz o molhamento
A água e a saliva diminuem a energia de superfície e o molhamento em uma cavidade a ser restaurada.
è Exemplos retirados dos slides da Professora Gislaine Biacchi – UFSM.
PROPRIEDADES FÍSICAS DOS MATERIAIS DENTÁRIOS
FORÇAS
Tensão: É a reação interna de um corpo, igual em intensidade e com direção contrária a força externa aplicada. Tração, contração, cisalhamento, torção, deflexão... entre outras.
Resistencia: Mede a tensão necessária para causar fratura ou deformação plástica de um material. D.E. (deformação elástica) D.P. (deformação plástica)
GRAFICOOO
Módulo de Elasticidade: a relação entre tensão e deformação no intervalo de tensões que vai até o limite de proporcionalidade
Limite de proporcionalidade (P): a maior tensão que um material suporta sem desvios da proporcionalidade linear da tensão e deformação.
Limite elástico: é o máximo de tensão suportada pelo material sem deformação permanente.
Flexibilidade: É a deformação experimentada por um material no seu limite proporcional, por ação de pequenas tensões.
Resiliencia: É a resistência de um material a deformação permanente. A dentina é muito resiliente, quando não suporta mais, fratura.
Fadiga: Fadiga é uma injúria, fratura, progressiva sob cargas repetidas.
Tenacidade: É a quantidade de energia necessária para fraturar um material. Constitui uma medida de resistência a fratura.
Friabilidade: Incapacidade relativa do material de suportar deformação plástica antes da fratura. Fratura muito próximo de seu limite de proporcionalidade.
Ductibilidade: É a capacidade de um material suportar uma tensão de tração sem deformação permanente (deformação plástica). ALTO GRAU DE TRAÇÃO INDICA BOA DUCTIBILIDADE.
Maleabilidade: É a capacidade de um material suportar uma tensão de COMPRESSÃO sem deformação permanente (Deformação plástica). ALTO GRAU DE COMPRESSÃO INDICA BOA MALEABILIDADE.
Dureza: Resistencia a edentação ou penetração permanente na superfície. Testes de dureza: Brinell, knoop, vickers, rockwell, barcol, Shore A.
PROPRIEDADES REALÓGICAS – escoamento da material
VISCOSIDADE: é a medida da consistência de um fluido e sua capacidade de escoamento.
è Um fluído altamente viscoso escoa lentamente. Ex: Cimento de Ionômero de vido x cimento de fosfato de zinco (para cimentação). O último deve ser pouco viscoso e muito fluído, para obter uma fina camada de cimentação.
ESCOAMENTO: Comportamento reológico de materiais amorfos sob tensão de compressão. Ex: ceras odontológicas.
CREEP: É a deformação plástica dependente do tempo de um material sólido sob uma carga estática. É o escoamento do sólido após cristalização.
- Metais sofrem CREEP perto do ponto de fusão. Amálgama pode sofrer CREP em boca (baixo ponto de fusão)
PROPRIEDADES TÉRMICAS
CONDUTIBILIDADE TÉRMICA: É a medida da transferência de calor através de um material pela condução. Coeficiente de condutibilidade térmica é a quantidade de calor expressa em calorias por segundo através de um espécime de 1cm de espessura com uma área de 1cm. Alguns coeficientes de Expansão Térmica:
Dentina: 0,75
Esmalte: 1,00
Amálgama: 2,19
Resina: 7,11
Ceras: 35,1
O esmalte expande menos e o amálgama “mais”. A mudança entre esses coeficientes pode gerar dor, na mudança de temperatura.
MATERIAIS PREVENTIVOS
Procuram evitar que a doença cárie se instale.
DENTIFRÍCIOS: forma de pó, líquido, pasta ou gel. Suas propriedades e substancias mais utilizadas em dentifrícios.
Abrasivo: carbonato de cálcio, pirofosfato de cálcio, sílico (infantil)
Umectantes: evita perda de água e endurecimento. Sorbitol
Aglutinante: impede separação do líquido e sólido. Metilcelulose
Detergentes: Menor tensão superficial, suspende resíduos e forma espuma. Lauril Sulfato de Sódio.
Terapêuticos:
Flúor – monofluorfosfato de cálcio MFP (formação de fluoreto de cálcio).
Triclosan – controle placa dental.
Piro fosfato de Sódio – previne a calcificação da placa (cálculo dentário).
Nitrato de potássio e cloreto de estrôncio – bloqueia a ação de estímulos (sensibilidade dentária).
Própolis – efeito antiinflamatório.
SELANTES
Produtos para preencher as fossas e fissuras dos dentes, evitando a penetração bacteriana. Muitas vezes a base dessas fossas é desprovida de esmalte. Os selantes podem ser a base de resina composta ou de ionômero de vidro. Serão estudados com detalhes adiante.
COLUTÓRIOS
Previnem cárie e auxiliam no tratamento periodental. Glucanato de Clorexidina, malva...
MATERIAIS DE PROTEÇÃO
Fatores que condicionam a proteção pulpar: profundidade da cárie, idade do paciente, condição pulpar e dentina remanescente.
Objetivos dos procedimentos de proteção: redução de bactérias, selamento interface dente/restauração, tratamento expectante, capeamento pulpar direto e indireto, curetagem pulpar e pulpotomia.
Materiais para limpeza da cavidade: água oxigenada, gluconato de clorexidine 2%, ácidos (fosfórico, pliacrílio, EDTA 0,2%), água de cal (exposição pulpar), detergente.
Materiais de proteção do complexo dentina-polpa
Vernizes Cavitários: são compostos à base de resina natural ou resina sintética dissolvidos em acetona, clorofórmio ou éter. Quando aplicado na cavidade o solvente evapora-se rapidamente deixando uma película protetora de resina, semipermeável. Antigamente eram muito usados como forradores de cavidades para amálgama. Hoje não são mais usados como protetores pulpares, mas sim como protetores do CIV após a inserção do material na cavidade, no galvanismo (temporário) ou para ATF.
Hidróxido de Cálcio: Material de escolha em procedimentos de proteção pulpar direta, tratamento expectante, curetagem e pulpotomia. Muito usado devido à capacidade de estimular a formação de dentina reparadora ou dentina esclerosada - “PONTES DE DENTINA”. Possui ação bactericida e desinfetante, estimula a regeneração pulpar, protege a polpa contra estímulos elétricos, pH alcalino, hemostático, solúvel (água, ácidos e solventes orgânicos) e biocompatível*. Utilizado na limpeza da cavidade, proteção pulpar direta, proteção pulpar indireta, tratamento expectante, curativo de demota (endodontia), cimentação de canais radiculares e fixação temporária de próteses.
*Não é considerado realmente biocompatível, pois causa uma desnaturação das proteínas (camada superficial), seguida de inflamação aguda e necrose superficial que leva as células mesenquimais a produzirem os odontoblastos.
HCal Pró-Análise (P.A.) – pó branco de pH elevado solúvel em água.
Solução de Hidróxido de Cálcio ou Água de Cal - É o material resultante da dissolução do Hcal P.A. em água destilada, soro fisiológico ou tergentol na concentração de 0,2%.
Suspensão de Hcal – Hcal em solução aquosa de metil-celulose. Ex: pulpdent liquid.
Pasta de Hcal – Diferenciam-se dos cimentos na cmposição, consistência e endurecimento. Constituem-se, basicamente, de Hcal P.A. em água destilada podendo ser preparada pelo profissional ou encontrada na forma comercial. Ex. Hypo-call, Pulpdent Past.
Cimento de Hcal – Apresenta-se em duas pastas: base e catalizadora. Alguns componentes: Hcal, óxido de zinco, dióxido de titânio, tungstato de cálcio, sulfato de vário, etc. Ex: Hidro – C, Dycal.
Tempo de manipulação do Cimento de HCal:
Tempo de espatulação: 10’’
Tempo de trabalho: 45’’
Tempo de presa: 2 a 3’.
SISTEMAS ADESIVOS
Atualmente é o material de eleição para proteção do complexo dentina/polpa. São matérias que se unem ao dente (dentina e esmalte) através da penetração em espaços ou invaginações criadas na estrutura dental através da ação de um ácido (remoção total ou parcial da smearlayer). Amplamente usados. São materiais que promovem o selamento da cavidade devido ao processo de hibridização e pelas características de adesão e insolubilidade.
CIMENTOS
Agentes para a proteção do complexo dentino-pulpar.
Agentes para Base: Película mais espessa.
CIMENTO DE FOSFATO DE ZINCO – Atualmente usados como agentes de cimentação de próteses metálicas ou metalocerâmicas.
CIMENTO DE ÓXIDO DE ZINCO E EUGENOL – Propriedades antiinflamatórias, usados como restauradores provisórios, melhor indicação III. Quando for usado na cimentação, se apresenta mais fluído do que na restauração provisória (TIPO III). Quanto maior a partícula do pó menor a resistência final.
TEMPO DE ESPATULAÇÃO = 1’
TEMPO DE TRABALHO = 2 A 5’
TEMPO DE PRESA = 3 A 10’
Cimentos Simples: Pó (óx. Zinco puro) + Líquido (Eugenol, óleos e água). A água hidroliza o óxido de zinco, formando hidróxido de zinco que reage com o eugenol para formar eugenolato e água. É fundamental que se tenha ZnO não reagido no material, a fim de manter a resistência.
è Em alta concentração pode causar efeitos danosos = inflamação crônica e necrose pulpar.
è Não utilizar com resinas compostas e hidróxido de cálcio
Cimentos Reforçados: Com resina (mais usados) ou com ácidos.
EBA – ácido etóxi-benzóico: possui mais de um hidrogênio para se unir ao óxido de zinco, mais resistentes.
PMMA – polimetacrilato de metila é adicionado ao pó.
è Material contra indicado para forrar futuras restaurações de resinas compostas, pois devido ao Eugenol, esta não endurece. Exceto em tratamentos expectantes que com o tempo desativam o Eugenol.
CIMENTO DE IONOMERO DE VIDRO
Pó (sílica, alumina, fluoreto de cálcio) + Líquido (ácido alquenóico, como o poliacrílico). Pode ser adicionado ácido tartárico, reduzindo a viscosidade e aumentando o tempo de trabalho, além de ácito itacônico que aumenta a vida útil do material.
Como ocorre a reação de presa?
1.       Deslocamento de íons (remove cálcio) e ionização do ácido poliacrílico: a água ioniza o ácido poliacrílico, neste estágio deve haver cuidado com a sinérese = perda de água.
2.       Formação da matriz de polissais = remove alumínio. Cuidar embebição de água.
3.       Gel de Sílica = flúor livre ou como fluoreto de sódio.
è Quanto maior o tamanho da partícula, maior o tempo de presa.
è O ácido tartárico reduz o tempo de presa e aumenta o tempo de trabalho.
è Isolamento Absoluto utilizando vernizes ou sistemas adesivos, para impedir a embebição.
Propriedades:
Boa adesão química, devido camada de cálcio no substrato dental (esmalte>dentina esclerosada>dentina).  Por isso no condicionamento da superfície a smearlayer deve ser removida com o ácido poliacrílico e não com ácidos inorgânicos como o fosfórico, pois estes removem o cálcio da estrutura (necessário a adesão).  
CIMENTO RESINOSO
Cimento de fosfato de zinco: cimentação de próteses ou pontes fixas, não é adesivo.
Pó (óxido de zinco e óxido de magnésio) + líquido (ácido fosfórico, água e fosfato de Al e Zn)
Em baixas temperaturas sua reação é retardada e menor viscosidade.
Resistente a compressão e tração. Na sua manipulação pode ser dividida em 4 porções, uma com 30’’ de espatulação, outras duas com 15’’. A última é novamente dividida, em 3 partes, de 10’’ cada. Somando um total de 1’ e 30’’ de espatulação, enquanto o tempo médio de trabalho é 5’ e de presa 8’.
AMÁLGAMA
Composição: prata (aumenta a resistência e expansão de presa), estanho (aumenta a dureza e contração, reduzindo a resistência), cobre (pouco friável, facilita o corte), zinco (agente de limpeza, remove óxidos da liga, reagem com o O2 liberando H2, expansão tardia com água) e mercúrio (facilita a amalgamação).
TIPOS DE LIGAS:
1.       Ligas Convencionais
Mínimo de 65% de prata para expandir
Máximo de 29% de estanho para evitar contração
Máximo de 6% de cobre
2% de zinco
3% de mercúrio
Ag3Sn = sistema prata-estanho, fase gama, responsável pela resistencia nos estágios iniciais.
Ag3Sn + Hg -> Ag3Sn +Ag2Hg3 + Sn7Hg
Quanto mais mercúrio na primeira reação maior formação de fase gama 2 (Sn7Hg), a qual é pouco estável.
2.       Ligas de alto conteúdo de cobre
2.1. Liga de dispersão: Procura eliminar ou reduzir gama 2.
Liga convencional (liga de limalha) + eutético prata cobre (liga esfenoidal)
Ag3Sn + Hg => Ag3Sn + Ag2Hg3 + Sn8Hg
+
AgCu + Sn8Hg => Ag3Sn + Cu6Hg5
Formação de fase ETA (Cu6Hg5) e eliminação da fase gama 2.
2.2. Composição única: Somente liga esfenoidal, melhor que dispersão, por que possui maior área de contato, sendo mais regular, reduz a quantidade de mercúrio necessária.
[Ag + Cu + Sn] + Hg -> AgHg + CuSn
MANIPULAÇÃO DO AMÁLGAMA
1.       Proporção.
2.       Trituração ou amalgamação – remove a película de óxidos da superfície das partículas
3.       Condensação – unir gama não atacada e remover excesso de mercúrio. Quanto maior o tempo de trituração e condensação mais fraco a amalgama.
4.       Brunimento e escultura – contra as paredes, teste do “grito” da amálgama.
5.       Acabamento e polimento – com uso de brocas e borrachas.

PROPRIEDADES
Resistência mecânica: quanto mais mercúrio, menos resistência e maior fase gama 2 (fraturas marginais e superfícies mais rugosas nas restaurações). Cuidar a força mastigatória nas primeiras 8 horas.
Escoamento: quanto maior Creep maior deformação e falha marginal das restaurações. O estanho aumenta o Creep, enquanto o cobre reduz por isso as ligas convencionais possuem um Creep maior.
Dimensionamento: quanto menor o tamanho das partículas, maior o consumo de mercúrio e maior a contração.







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